quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Brexit e a extrema-direita europeia


Coletivo Espaço Marxista

A vitória do "Brexit" despertou reações diversas na esquerda mundial. Houve aqueles que elogiaram a medida, como sendo uma reação dos trabalhadores do Reino Unido contra os ditames da União Europeia e a burguesia do continente, com suas negociatas e imposições de mercado, e houve aqueles que deploraram o resultado do plebiscito, como sendo reflexo do ascenso de posições nacionalistas e xenófobas, no que foi sintomático o assassinato da deputada do Partido Trabalhista, Jo Cox, militante pela permanência na União Europeia, por um lunático de direita.

É verdade que o resultado reflete o descontentamento de amplos setores da classe trabalhadora britânica, fragilizada há décadas pelo neoliberalismo tatcherista e sob a recessão eco da crise capitalista de fins dos anos 2000. Mas há que tomar cuidado para que tal descontentamento não seja pautado e instrumentalizado pela direita, da mesma forma que, para ficarmos em um exemplo doméstico, a justa revolta do povo contra as políticas do governo petista e seus aliados foi rapidamente "sequestrada" pela direita mais reacionária, nas ditas "jornadas de junho" de 2013. Como Trotsky já dizia ainda nos 30, a crise de direção da classe trabalhadora continua sendo uma realidade. Longe de cairmos no extremo oposto do "substitucionismo" e do "vanguardismo", temos em mente que sem um partido ou movimento de vanguarda, as justas aspirações populares tendem a se dispersar, cair no voluntarismo ou, pior, ser presa do fascismo.

Nesse sentido, ainda que haja prós e contras na permanência na União Europeia, estando também a direita mundial dividida quanto a isso, e por mais que se possa escrever laudas e laudas de problematizações e detalhes sobre as contradições envolvidas, nós do Coletivo Espaço Marxista entendemos que a extrema-direita xenófoba saiu vitoriosa do resultado. Já pouco antes do anúncio oficial começaram os eufóricos brados nacionalistas, aumentando os graus de insegurança e incerteza sofridos pelos trabalhadores imigrantes quanto ao seu futuro. Por todo continente, a extrema-direita comemorou: do Partido da Liberdade da Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs) ao Partido para a Liberdade holandês (Partij voor de Vrijheid) de Geert Wilders, passando pelo Front National de Marine Le Pen na França, tudo que há de reacionário, fascista e populista de direita na Europa saudou o resultado e sinalizou -ou ameaçou- com a repetição do feito em seus próprios países.

Ao contrário da esquerda que parabenizou o resultado, não acreditamos que a consciência de classe dos trabalhadores britânicos (e por extensão europeus) possa dar uma salto qualitativo em meio à maré reacionária. Muito pelo contrário. Em termos geopolíticos, o Brexit também é regressivo: livre das amarras e dos compromissos de diálogo no seio da União Europeia, a Grã-Bretanha se alinhará ainda mais com Washington, e a recente manifestação do comitê de defesa do parlamento britânico exigindo uma "resposta dura" contra o aumento do potencial militar russo é uma amostra do que vem por aí.

O nacionalismo pode desempenhar papel progressista em países atrasados ou entre povos que lutam por sua autodeterminação (curdos, palestinos etc.). Em países capitalistas desenvolvidos, ao contrário, tem caráter profundamente reacionário. Sabemos, em todo caso, que a emancipação dos trabalhadores europeus (imigrantes inclusive) não virá por meio de uma "União Europeia" de banqueiros e capitalistas, e sim pela construção revolucionária do socialismo no continente.
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